O vale dos suicidas

O vale dos suicidas

 

 

Precisamente no mês de janeiro do ano da graça de 1891, fora eu surpreendido
com meu aprisionamento em região do Mundo Invisível cujo desolador panorama era
composto por vales profundos, a que as sombras presidiam: gargantas sinuosas e
cavernas sinistras, no interior das quais uivavam, quais maltas de demônios enfurecidos,
Espíritos que foram homens, dementados pela intensidade e estranheza,
verdadeiramente inconcebíveis, dos sofrimentos que os martirizavam.
Nessa paragem aflitiva a vista torturada do grilheta não distinguiria sequer o doce
vulto de um arvoredo que testemunhasse suas horas de desesperação; tampouco
paisagens confortativas, que pudessem distraí-lo da contemplação cansativa dessas
gargantas onde não penetrava outra forma de vida que não a traduzida pelo supremo
horror!
O solo, coberto de matérias enegrecidas e fétidas, lembrando a fuligem, era
imundo, pastoso, escorregadio, repugnante! O ar pesadíssimo, asfixiante, gelado,
enoitado por bulcões ameaçadores como se eternas tempestades rugissem em torno; e,
ao respirarem-no, os Espíritos ali ergastulados sufocavam-se como se matérias
pulverizadas, nocivas mais do que a cinza e a cal, lhes invadissem as vias respiratórias,
martirizando-os com suplício inconcebível ao cérebro humano habituado às gloriosas
claridades do Sol - dádiva celeste que diariamente abençoa a Terra - e às correntes
vivificadoras dos ventos sadios que tonificam a organização física dos seus habitantes.
Não havia então ali, como não haverá jamais, nem paz, nem consolo, nem
esperança: tudo em seu âmbito marcado pela desgraça era miséria, assombro, desespero
e horror. Dir-se-ia a caverna tétrica do Incompreensível, indescritível a rigor até mesmo
por um Espírito que sofresse a penalidade de habitá-la.
O vale dos leprosos, lugar repulsivo da antiga Jerusalém de tantas emocionantes
tradições, e que no orbe terráqueo evoca o último grau da abjeção e do sofrimento
humano, seria consolador estágio de repouso comparado ao local que tento descrever.
Pelo menos, ali existiria solidariedade entre os renegados! Os de sexo diferente
chegavam mesmo a se amar! Adotavam-se em boas amizades, irmanando-se no seio da
dor para suavizá-la! Criavam a sua sociedade, divertiam-se, prestavam-se favores,
dormiam e sonhavam que eram felizes!
Mas no presídio de que vos desejo dar contas nada disso era possível, porque as
lágrimas que se choravam ali eram ardentes demais para se permitirem outras atenções
que não fossem as derivadas da sua própria intensidade!
No vale dos leprosos havia a magnitude compensadora do Sol para retemperar os
corações! Existia o ar fresco das madrugadas com seus orvalhos regeneradores! Poderia
o precito ali detido contemplar uma faixa do céu azul... Seguir, com o olhar enternecido,
bandos de andorinhas ou de pombos que passassem em revoada!... Ele sonharia, quem
sabe? Lenido de amarguras, ao poético clarear do plenilúnio, enamorando-se das
cintilações suaves das estrelas que, lá no Inatingível, acenariam para a sua desdita,
sugerindo-lhe consolações no insulamento a que o forçavam as férreas leis da época!...
E, depois, a Primavera fecunda voltava, rejuvenescia as plantas para embalsamar com
seus perfumes cariciosos as correntes de ar que as brisas diariamente tonificavam com
outros tantos bálsamos generosos que traziam no seio amorável... E tudo isso era como
dádivas celestiais para reconciliá-lo com Deus, fornecendo-lhe tréguas na desgraça.
Mas na caverna onde padeci o martírio que me surpreendeu além do túmulo, nada
disso havia!
Aqui, era a dor que nada consola, a desgraça que nenhum favor ameniza, a
tragédia que idéia alguma tranqüilizadora vem orvalhar de esperança! Não há céu, não há
luz, não há sol, não há perfume, não há tréguas!
O que há é o choro convulso e inconsolável dos condenados que nunca se
harmonizam! O assombroso "ranger de dentes" da advertência prudente e sábia do sábio
Mestre de Nazaré! A blasfêmia acintosa do réprobo a se acusar a cada novo rebate da
mente flagelada pelas recordações penosas! A loucura inalterável de consciências
contundidas pelo vergastar infame dos remorsos. O que há é a raiva envenenada daquele
que já não pode chorar, porque ficou exausto sob o excesso das lágrimas! O que há é o
desaponto, a surpresa aterradora daquele que se sente vivo a despeito de se haver
arrojado na morte! É a revolta, a praga, o insulto, o ulular de corações que o percutir
monstruoso da expiação transformou em feras! O que há é a consciência conflagrada, a
alma ofendida pela imprudência das ações cometidas, a mente revolucionada, as
faculdades espirituais envolvidas nas trevas oriundas de si mesma! O que há é o "ranger
de dentes nas trevas exteriores" de um presídio criado pelo crime, votado ao martírio e
consagrado à emenda! É o inferno, na mais hedionda e dramática exposição, porque,
além do mais, existem cenas repulsivas de animalidade, práticas abjetas dos mais
sórdidos instintos, as quais eu me pejaria de revelar aos meus irmãos, os homens!
Quem ali temporariamente estaciona, como eu estacionei, são grandes vultos do
crime! É a escória do mundo espiritual - falanges de suicidas que periodicamente para
seus canais afluem levadas pelo turbilhão das desgraças em que se enredaram, a se
despojarem das forças vitais que se encontram, geralmente intactas, revestindo-lhes os
envoltórios físico-espirituais, por seqüências sacrílegas do suicídio, e provindas,
preferentemente, de Portugal, da Espanha, do Brasil e colônias portuguesas da África,
infelizes carentes do auxílio confortativo da prece; aqueles, levianos e inconseqüentes,
que, fartos da vida que não quiseram compreender, se aventuraram ao Desconhecido, em
procura do Olvido, pelos despenhadeiros da Morte!
O Além-túmulo acha-se longe de ser a abstração que na Terra se supõe, ou as
regiões paradisíacas fáceis de conquistar com algumas poucas fórmulas inexpressivas.
Ele é, antes, simplesmente a Vida Real, e o que encontramos ao penetrar suas regiões é
Vida! Vida intensa a se desdobrar em modalidades infinitas de expressão, sabiamente
dividida em continentes e falanges como a Terra o é em nações e raças; dispondo de
organizações sociais e educativas modelares, a servirem de padrão para o progresso da
Humanidade. É no Invisível, mais do que em mundos planetários, que as criaturas
humanas colhem inspiração para os progressos que lentamente aplicam no orbe.
Não sei como decorrerão os trabalhos correcionais para suicidas nos demais
núcleos ou colônias espirituais destinadas aos mesmos fins e que se desdobrarão sob
céus portugueses, espanhóis e seus derivados. Sei apenas é que fiz parte de sinistra
falange detida, por efeito natural e lógico, nessa paragem horrenda cuja lembrança ainda
hoje me repugna à sensibilidade. É bem possível que haja quem ponha a discussões
mordazes a veracidade do que vai descrito nestas páginas. Dirão que a fantasia mórbida
de um inconsciente exausto de assimilar Dante terá produzido por conta própria a
exposição aqui ventilada... esquecendo-se de que, ao contrário, o vate florentino é que
conheceria o que o presente século sente dificuldades em aceitar...
Não os convidarei a crer. Não é assunto que se imponha à crença, simplesmente,
mas ao raciocínio, ao exame, à investigação. Se sabem raciocinar e podem investigar -
que o façam, e chegarão a conclusões lógicas que os colocarão na pista de verdades assaz interessantes para toda a espécie humana! O a que os convido, o que
ardentemente desejo e para que tenho todo o interesse em pugnar, é que se eximam de
conhecer essa realidade através dos canais trevosos a que me expus, dando-me ao
suicídio por desobrigar-me da advertência de que a morte nada mais é do que a
verdadeira forma de existir!...
De outro modo, que pretenderia o leitor existisse nas camadas invisíveis que
contornam os mundos ou planetas, senão a matriz de tudo quanto neles se reflete?!... Em
nenhuma parte se encontraria a abstração, ou o nada, pois que semelhantes vocábulos
são inexpressivos no Universo criado e regido por uma Inteligência Onipotente! Negar o
que se desconhece, por se não encontrar à altura de compreender o que se nega, é
insânia incompatível com os dias atuais. O século convida o homem à investigação e ao
livre exame, porque a Ciência nas suas múltiplas manifestações vem provando a
inexatidão do impossível dentro do seu cada vez mais dilatado raio de ação. E as provas
da realidade dos continentes superterrenos encontram-se nos arcanos das ciências
psíquicas transcendentais, às quais o homem há ligado muito relativa importância até
hoje.
O que conhece o homem, aliás, do próprio planeta onde tem renascido desde
milênios, para criteriosamente rejeitar o que o futuro há de popularizar sob os auspícios
do Psiquismo?... O seu país, a sua capital, a sua aldeia, a sua palhoça ou, quando mais
avantajado de ambições, algumas nações vizinhas cujos costumes se nivelam aos que
lhe são usuais?...
Por toda a parte, em torno dele, existem mundos reais, exarando vida abundante e
intensa: e se ele o ignora será porque se compraz na cegueira, perdendo tempo com
futilidades e paixões que lhe sabem ao caráter. Não perquiriu jamais as profundidades
oceânicas – não poderá mesmo fazê-lo, por enquanto. Não obstante, debaixo das águas
verdes e marulhentas existe não mais um mundo perfeitamente organizado, mas um
universo que assombraria pela grandiosidade e ideal perfeição!
No próprio ar que respira, no solo onde pisa encontraria o homem outros núcleos
organizados de vida, obedecendo ao impulso inteligente e sábio de leis magnânimas
fundamentadas no Pensamento Divino, que os aciona para o progresso, na conquista do
mais perfeito! Bastaria que se munisse de aparelhamentos precisos, para averiguar a
veracidade dessas coletividades desconhecidas que, por serem invisíveis umas, e outras
apenas suspeitadas, nem por isso deixam de ser concretas, harmoniosas, verdadeiras!
Assim sendo, habilite-se, também, desenvolvendo os dons psíquicos que herdou
da sua divina origem... Impulsione pensamento, vontade, ação, coração, através das vias
alcanforadas da Espiritualidade superior... e atingirá as esferas astrais que circundam a
Terra!
Era eu, pois, presidiário dessa cova ominosa do horror!
Não habitava, porém, ali sozinho. Acompanhava-me uma coletividade, falange
extensa de delinqüentes, como eu.
Então ainda me sentia cego. Pelo menos, sugestionava-me de que o era, e, como
tal, me conservava, não obstante minha cegueira só se definir, em verdade, pela
inferioridade moral do Espírito distanciado da Luz. A mim cego não passaria, contudo,
despercebido o que se apresentasse mal, feio, sinistro, imoral, obsceno, pois
conservavam meus olhos visão bastante para toda essa escória contemplar - agravandose
destarte a minha desdita.
Dotado de grande sensibilidade, para maior mal tinha-a agora como
superexcitada, o que me levava a experimentar também os sofrimentos dos outros
mártires meus compares, fenômeno esse ocasionado pelas correntes mentais que se
despejavam sobre toda a falange e oriundas dela própria, que assim realizava
impressionante afinidade de classe, o que é o mesmo que asseverar que sofríamos
também as sugestões dos sofrimentos uns dos outros, além das insídias a que nos
submetiam os nossos próprios sofrimentos.(1)

(1) Após a morte, antes que o Espírito se oriente, gravitando para o verdadeiro "lar espiritual" que lhe cabe,
será sempre necessário o estágio numa "antecâmara", numa região cuja densidade e aflitivas configurações
locais corresponderão aos estados vibratórios e mentais do recém-desencarnado. Aí se deterá até que seja
naturalmente "desanimalizado", isto é, que se desfaça dos fluidos e forças vitais de que são impregnados
todos os corpos materiais. Por aí se verá que a estada será temporária nesse umbral do Além, conquanto
geralmente penosa. Tais sejam o caráter, as ações praticadas, o gênero de vida, o gênero de morte que
teve a entidade desencarnada - tais serão o tempo e a penúria no local descrito. Existem aqueles que aí
apenas se demoram algumas horas. Outros levarão meses, anos consecutivos, voltando à reencarnação
sem atingirem a Espiritualidade. Em se tratando de suicidas o caso assume proporções especiais, por
dolorosas e complexas. Estes aí se demorarão, geralmente, o tempo que ainda lhes restava para conclusão
do compromisso da existência que prematuramente cortaram. Trazendo carregamentos avantajados de
forças vitais animalizadas, além das bagagens das paixões criminosas e uma desorganização mental,
nervosa e vibratória completas, é fácil entrever qual será a situação desses infelizes para quem um só
bálsamo existe: a prece das almas caritativas!

Se, por muito longo, esse estágio exorbite das medidas normais ao caso - a reencarnação imediata será a
terapêutica indicada, embora acerba e dolorosa, o que será preferível a muitos anos em tão desgraçada
situação, assim se completando, então, o tempo que faltava ao término da existência cortada.
As vezes, conflitos brutais se verificavam pelos becos lamacentos onde se
enfileiravam as cavernas que nos serviam de domicílio. Invariavelmente irritados, por
motivos insignificantes nos atirávamos uns contra os outros em lutas corporais violentas,
nas quais, tal como sucede nas baixas camadas sociais terrenas, levaria sempre o melhor
aquele que maior destreza e truculência apresentasse. Freqüentemente fui ali insultado,
ridiculizado nos meus sentimentos mais caros e delicados com chistes e sarcasmos que
me revoltavam até o âmago; apedrejado e espancado até que, excitado por fobia idêntica,
eu me atirava a represálias selvagens, ombreando com os agressores e com eles
refocilando na lama da mesma ceva espiritual!
A fome, a sede, o frio enregelador, a fadiga, a insônia; exigências físicas
martirizantes, fáceis de o leitor entrever; a natureza como que aguçada em todos os seus
desejos e apetites, qual se ainda trouxéssemos o envoltório carnal; a promiscuidade,
muito vexatória, de Espíritos que foram homens e dos que animaram corpos femininos;
tempestades constantes, inundações mesmo, a lama, o fétido, as sombras perenes, a
desesperança de nos vermos livres de tantos martírios sobrepostos, o supremo
desconforto físico e moral - eis o panorama por assim dizer "material" que emoldurava os
nossos ainda mais pungentes padecimentos morais!
Nem mesmo sonhar com o Belo, dar-se a devaneios balsamizantes ou a
recordações beneficentes era concedido àquele que porventura possuísse capacidade
para o fazer. Naquele ambiente superlotado de males o pensamento jazia encarcerado
nas fráguas que o contornavam, só podendo emitir vibrações que se afinassem ao tono
da própria perfídia local... E, envolvidas em tão enlouquecedores fogos, não havia
ninguém que pudesse atingir um instante de serenidade e reflexão para se lembrar de
Deus e bradar por Sua paternal misericórdia!
Não se podia orar porque a oração é um bem, é um bálsamo, é uma trégua, é
uma esperança! e aos desgraçados que para lá se atiravam nas torrentes do suicídio
impossível seria atingir tão altas mercês!
Não sabíamos quando era dia ou quando voltava a noite, porque sombras perenes
rodeavam as horas que vivíamos. Perdêramos a noção do tempo. Apenas esmagadora
sensação de distância e longevidade do que representasse o passado ficara para açoitar
nossas interrogações, afigurando-se-nos que estávamos há séculos jungidos a tão ríspido
calvário! Dali não esperávamos sair, conquanto fosse tal desejo uma das causticantes
obsessões que nos alucinavam... pois o Desânimo gerador da desesperança que nos
armara o gesto de suicidas afirmava-nos que tal estado de coisas seria eterno!
A contagem do tempo, para aqueles que mergulhavam nesse abismo, estacionara
no momento exato em que fizera para sempre tombar a própria armadura de carne! Daí
para cá só existiam - assombro, confusão, enganosas induções, suposições insidiosas!
Igualmente ignorávamos em que local nos encontrávamos, que significação teria nossa
espantosa situação. Tentávamos, aflitos, furtarmo-nos a ela, sem percebermos que era
cabedal de nossa própria mente conflagrada, de nossas vibrações entrechocadas por mil
malefícios indescritíveis! Procurávamos então fugir do local maldito para voltarmos aos
nossos lares; e o fazíamos desabaladamente, em insanas correrias de loucos furiosos! A
asveros malditos, sem consolo, sem paz, sem descanso em parte alguma... ao passo que
correntes irresistíveis, como ímãs poderosos, atraíam-nos de volta ao tugúrio sombrio,
arrastando-nos de envolta a um atro turbilhão de nuvens sufocadoras e estonteantes!
De outras vezes, tateando nas sombras, lá íamos, por entre gargantas, vielas e
becos, sem lograrmos indício de saída... Cavernas, sempre cavernas – todas numeradas
-; ou longos espaços pantanosos quais lagos lodosos circulados de muralhas abruptas,
que nos afiguravam levantadas em pedra e ferro, como se fôramos sepultados vivos nas
profundas tenebrosidades de algum vulcão! Era um labirinto onde nos perdíamos sem
podermos jamais alcançar o fim! Por vezes acontecia não sabermos retornar ao ponto de
partida, isto é, às cavernas que nos serviam de domicílio, o que forçava a permanência ao
relento até que deparássemos algum covil desabitado para outra vez nos abrigarmos.
Nossa mais vulgar impressão era de que nos encontrávamos encarcerados no subsolo,
em presídio cavado no seio da Terra, quem sabia se nas entranhas de uma cordilheira, da
qual fizesse parte também algum vulcão extinto, como pareciam atestar aqueles
imensuráveis poços de lama com paredes escalavradas lembrando minerais pesados?!...
Aterrados, entrávamos então a bramir em coro, furiosamente, quais maltas de
chacais danados, para que nos retirassem dali, restituindo-nos à liberdade! As mais
violentas manifestações de terror seguiam-se então; e tudo quanto o leitor imaginar
possa, dentro da confusão de cenas patéticas inventadas pela fobia do Horror, ficará
muito aquém da expressão real por nós vivida nessas horas criadas pelos nossos
próprios pensamentos distanciados da Luz e do Amor de Deus! Como se fantásticos
espelhos perseguissem obsessoramente nossas faculdades, lá se reproduzia a visão
macabra: - o corpo a se decompor sob o ataque dos vibriões esfaimados; a faina
detestável da podridão a seguir o curso natural da destruição orgânica, levando em roldão
nossas carnes, nossas vísceras, nosso sangue pervertido pelo fétido, nosso corpo enfim,
que se sumia para sempre no banquete asqueroso de milhões de vermes vorazes, nosso
corpo, que era carcomido lentamente, sob nossas vistas estupefatas!... que morria, era
bem verdade, enquanto nós, seus donos, nosso Ego sensível, pensante, inteligente, que
dele se utilizara apenas como de um vestuário transitório, continuava vivo, sensível,
pensante, inteligente, desapontado e pávido, desafiando a possibilidade de também
morrer! E - ó tétrica magia que ultrapassava todo o poder que tivéssemos de refletir e
compreender! - ó castigo irremovível, punindo o renegado que ousou insultar a Natureza
destruindo prematuramente o que só ela era competente para decidir e realizar: - Vivos,
nós, em espírito, diante do corpo putrefato, sentíamos a corrupção atingir-nos!... Doíam
em nossa configuração astral as picadas monstruosas dos vermes! Enfurecia-nos até à
demência a martirizante repercussão que levava nosso perispírito, ainda animalizado e
provido de abundantes forças vitais, a refletir o que se passava com seu antigo envoltório
limoso, tal o eco de um rumor a reproduzir-se de quebrada em quebrada da montanha, ao
longo de todo o vale...
Nossa covardia, então, a mesma que nos brutalizara induzindo-nos ao suicídio,
forçava-nos a retroceder.
Retrocedíamos.
Mas o suicídio é uma teia envolvente em que a vítima - o suicida - só se debate
para cada vez mais confundir-se, tolher-se, embaraçar-se. Sobrepunha-se a confusão.
Agora, a persistência da auto-sugestão maléfica recordava as lendas supersticiosas,
ouvidas na infância e calcadas por longo tempo nas camadas da sub-consciência;
corporificava-se em visões extravagantes, a que emprestava realidade integral.
Julgávamo-nos nada menos do que à frente do tribunal dos infernos!... Sim! Vivíamos na plenitude da região das sombras!... E Espíritos de ínfima classe do Invisível - obsessores
que pululam por todas as camadas inferiores, tanto da Terra como do Além; os mesmos
que haviam alimentado em nossas mentes as sugestões para o suicídio, divertindo-se
com nossas angústias, prevaleciam-se da situação anormal para a qual resvaláramos, a
fim de convencer-nos de que eram juízes que nos deveriam julgar e castigar,
apresentando-se às nossas faculdades conturbadas pelo sofrimento como seres
fantásticos, fantasmas impressionantes e trágicos. Inventavam cenas satânicas, com que
nos supliciavam. Submetiam-nos a vexames indescritíveis! Obrigavam-nos a torpezas e
deboches, violentando-nos a compactuar de suas infames obscenidades! Donzelas que
se haviam suicidado, desculpando-se com motivos de amor, esquecidas de que o vero
amor é paciente, virtuoso e obediente a Deus; olvidando, no egoísmo passional de que
deram provas, o amor sacrossanto de uma mãe que ficara inconsolável; desrespeitando
as cãs veneráveis de um pai - os quais jamais esqueceriam o golpe em seus corações
vibrados pela filha ingrata que preferiu a morte a continuar no tabernáculo do lar paterno,
eram agora insultadas no seu coração e no seu pudor por essas entidades animalizadas e
vis, que as faziam crer serem obrigadas a se escravizarem por serem eles os donos do
império de trevas que escolheram em detrimento do lar que abandonaram! Em verdade,
porém, tais entidades não passavam de Espíritos que também foram homens, mas que
viveram no crime: sensuais, alcoólatras, devassos, intrigantes, hipócritas, perjuros,
traidores, sedutores, assassinos perversos, caluniadores, sátiros - enfim, essa falange
maléfica que infelicita a sociedade terrena, que muitas vezes tem funerais pomposos e
exéquias solenes, mas que na existência espiritual se resume na corja repugnante que
mencionamos... até que reencarnações expiatórias, miseráveis e rastejantes, venham
impulsioná-la a novas tentativas de progresso.
A tão deploráveis seqüências sucediam-se outras não menos dramáticas e
rescaldantes: - atos incorretos por nós praticados durante a encarnação, nossos erros,
nossas quedas pecaminosas, nossos crimes mesmo, corporificavam-se à frente de
nossas consciências como outras visões acusadoras, intransigentes na condenação
perene a que nos submetiam. As vítimas do nosso egoísmo reapareciam agora, em
reminiscências vergonhosas e contumazes, indo e vindo ao nosso lado em atropelos
pertinazes, infundindo em nossa já tão combalida organização espiritual o mais
angustioso desequilíbrio nervoso forjado pelo remorso!
Sobrepondo-se, no entanto, a tão lamentável acervo de iniqüidades, acima de
tanta vergonha e tão rudes humilhações existia, vigilante e compassiva, a paternal
misericórdia do Deus Altíssimo, do Pai justo e bom que "não quer a morte do pecador,
mas que ele viva e se arrependa".
Nas peripécias que o suicida entra a curtir depois do desbarato que
prematuramente o levou ao túmulo, o Vale Sinistro apenas representa um estágio
temporário, sendo ele para lá encaminhado por movimento de impulsão natural, com o
qual se afina, até que se desfaçam as pesadas cadeias que o atrelam ao corpo físicoterreno,
destruído antes da ocasião prevista pela lei natural. Será preciso que se
desagreguem dele as poderosas camadas de fluidos vitais que lhe revestiam a
organização física, adaptadas por afinidades especiais da Grande Mãe Natureza à
organização astral, ou seja, ao perispírito, as quais nele se aglomeram em reservas
suficientes para o compromisso da existência completa; que se arrefeçam, enfim, as
mesmas afinidades, labor que na individualidade de um suicida será acompanhado das
mais aflitivas dificuldades, de morosidade impressionante, para, só então, obter
possibilidade vibratória que lhe faculte alívio e progresso (2), De outro modo, tal seja a
feição do seu caráter, tais os deméritos e grau de responsabilidades gerais - tal será o
agravo da situação, tal a intensidade dos padecimentos a experimentar, pois, nestes
casos, não serão apenas as conseqüências decepcionantes do suicídio que lhe afligirão a
alma, mas também o reverso dos atos pecaminosos anteriormente cometidos.

(2) As impressões e sensações penosas, oriundas do corpo carnal, que acompanham o Espírito ainda
materializado, chamaremos repercussões magnéticas, em virtude do magnetismo animal, existente em
todos os seres vivos, e suas afinidades com o perispírito. Trata-se de fenômeno idêntico ao que faz a um
homem que teve o braço ou a perna amputados sentir coceiras na palma da mão que já não existe com ele,
ou na sola do pé, igualmente inexistente. Conhecemos em certo hospital um pobre operário que teve ambas
as pernas amputadas senti-las tão vivamente consigo, assim como os pés, que, esquecido de que já não os
possuía, procurou levantar-se, levando, porém, estrondosa queda e ferindo-se. Tais fenômenos são fáceis
de observar.

Periodicamente, singular caravana visitava esse antro de sombras.
Era como a inspeção de alguma associação caridosa, assistência protetora de
instituição humanitária, cujos abnegados fins não se poderiam pôr em dúvida.
Vinha à procura daqueles dentre nós cujos fluidos vitais, arrefecidos pela
desintegração completa da matéria, permitissem locomoção para as camadas do Invisível
intermediário, ou de transição.
Supúnhamos tratar-se, a caravana, de um grupo de homens. Mas na realidade
eram Espíritos que estendiam a fraternidade ao extremo de se materializarem o suficiente
para se tornarem plenamente percebidos à nossa precária visão e nos infundirem
confiança no socorro que nos davam.
Trajados de branco, apresentavam-se caminhando pelas ruas lamacentas do
Vale, de um a um, em coluna rigorosamente disciplinada, enquanto, olhando-os
atentamente, distinguiríamos, à altura do peito de todos, pequena cruz azul-celeste, o que
parecia ser um emblema, um distintivo.
Senhoras faziam parte dessa caravana. Precedia, porém, a coluna, pequeno
pelotão de lanceiros, qual batedor de caminhos, ao passo que vários outros milicianos da
mesma arma rodeavam os visitadores, como tecendo um cordão de isolamento, o que
esclarecia serem estes muito bem guardados contra quaisquer hostilidades que
pudessem surgir do exterior. Com a destra o oficial comandante erguia alvinitente flâmula,
na qual se lia, em caracteres também azul-celeste, esta extraordinária legenda, que tinha
o dom de infundir insopitável e singular temor:

- LEGIÃO DOS SERVOS DE MARIA.
Os lanceiros, ostentando escudo e lança, tinham tez bronzeada e trajavam-se com
sobriedade, lembrando guerreiros egípcios da antiguidade. E, chefiando a expedição,
destacava-se varão respeitável, o qual trazia avental branco e insígnias de médico a par
da cruz já referida. Cobria-lhe a cabeça, porém, em vez do gorro característico, um
turbante hindu, cujas dobras eram atadas à frente pela tradicional esmeralda, símbolo dos
esculápios.
Entravam aqui e ali, pelo interior das cavernas habitadas, examinando seus
ocupantes. Curvavam-se, cheios de piedade, junto das sarjetas, levantando aqui e acolá
algum desgraçado tombado sob o excesso de sofrimento; retiravam os que
apresentassem condições de poderem ser socorridos e colocavam-nos em macas
conduzidas por varões que se diriam serviçais ou aprendizes.
Voz grave e dominante, de alguém invisível que falasse pairando no ar, guiava-os
no caridoso afã, esclarecendo detalhes ou desfazendo confusões momentaneamente
suscitadas. A mesma voz fazia a chamada dos prisioneiros a serem socorridos, proferindo
seus nomes próprios, o que fazia que se apresentassem, sem a necessidade de serem
procurados, aqueles que se encontrassem em melhores condições, facilitando destarte o
serviço dos caravaneiros. Hoje posso dizer que todas essas vozes amigas e protetoras
eram transmitidas através de ondas delicadas e sensíveis do éter, com o sublime
concurso de aparelhamentos magnéticos mantidos para fins humanitários em
determinados pontos do invisível, isto é, justamente na localidade que nos receberia ao
sairmos do Vale. Mas, então, ignorávamos o pormenor e muito confusos nos sentíamos.
As macas, transportadas cuidadosamente, eram guardadas pelo cordão de
isolamento já referido e abrigadas no interior de grandes veículos à feição de comboios,
que acompanhavam a expedição. Esses comboios, no entanto, apresentavam
singularidade interessante, digna de relato. Em vez de apresentarem os vagões comuns às estradas de ferro, como os que conhecíamos, lembravam, antes, meio de transporte
primitivo, pois se compunham de pequenas diligências atadas uma às outras e rodeadas
de persianas muito espessas, o que impediria ao passageiro verificar os locais por onde
deveria transitar. Brancos, leves, como burilados em matérias específicas habilmente
laqueadas, eram puxados por formosas parelhas de cavalos também brancos, nobres
animais cuja extraordinária beleza e elegância incomum despertariam nossa atenção se
estivéssemos em condições de algo notar para além das desgraças que nos mantinham
absorvidos dentro de nosso âmbito pessoal. Dir-se-iam, porém, exemplares da mais alta
raça normanda, vigorosos e inteligentes, as belas crinas ondulantes e graciosas
enfeitando-lhes os altivos pescoços quais mantos de seda, níveos e finalmente franjados.
Nos carros distinguia-se também o mesmo emblema azul-celeste e a legenda respeitável.
Geralmente, os infelizes assim socorridos encontravam-se desfalecidos,
exânimes, como atingidos de singular estado comatoso. Outros, no entanto, alucinados
ou doloridos, infundiriam compaixão pelo estado de supremo desalento em que se
conservavam.
Depois de rigorosa busca, a estranha coluna marchava em retirada até o local em
que se postava o comboio, igualmente defendido por lanceiros hindus. Silenciosamente
cortava pelos becos e vielas, afastava-se, afastava-se... desaparecendo de nossas vistas
enquanto mergulhávamos outra vez na pesada solidão que nos cercava... Em vão
clamavam por socorro os que se sentiam preteridos, incapacitados de compreenderem
que, se assim sucedia, era porque nem todos se encontravam em condições vibratórias
para emigrarem para regiões menos hostis. Em vão suplicavam justiça e compaixão ou se
amotinavam, revoltados, exigindo que os deixassem também seguir com os demais. Não
respondiam os caravaneiros com um gesto sequer; e se algum mais desgraçado ou
audacioso tentasse assaltar as viaturas a fim de atingi-las e nelas ingressar, dez, vinte
lanças faziam-no recuar, interceptando-lhe a passagem.
Então, um coro hediondo de uivos e choro sinistros, de pragas e gargalhadas
satânicas, o ranger de dentes comum ao réprobo que estertora nas trevas das males por
si próprio forjados, repercutiam longa e dolorosamente pelas ruas lamacentas, parecendo
que loucura coletiva atacara os míseros detentos, elevando suas raivas ao
incompreensível no linguajar humano!
E assim ficavam... quanto tempo?... Oh! Deus piedoso! Quanto tempo?...
Até que suas inimagináveis condições de suicidas, de mortos-vivos, lhes
permitissem também a transferência para localidade menos trágica...

Do livro memorias de um suicida -médium- Yvonne do Amaral Pereira

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